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Caminho Central de Santiago 2014

por daraopedal, em 27.07.14

Regressei uma vez mais a Santiago de Compostela de bicicleta.

Passados 8 anos desde a primeira vez que fui, voltei a percorrer o caminho central. O que mais gosto é da descoberta de novos caminhos, mas esta nova investida trazia uma novidade: a descoberta do novo troço alternativo, que desvia da penosa zona industrial de Porriño. Também havia um desafio físico pela distância e dificuldade da primeira etapa. Contudo, houve também uma outra forma de ver o caminho, pois acabei por apreciar muito mais o percurso. A primeira vez que me meti por este caminho, a minha preparação foi insuficiente. Desta vez, muitos quilómetros depois e com mais experiência nestas andanças, acabei por "redescobrir" este caminho, apreciando detalhes que me tinham passado ao lado.

O percurso foi feito em três etapas:

1º dia - Porto a Valença do Minho - 129 km

2º dia - Valença do Minho a Caldas de Reis - 82 km

3º dia - Caldas de Reis a Santiago de Compostela - 46 km

Desta vez, não me vou alongar muito com as descrições, e prefiro deixar que as imagens falem por si.

 

1ª etapa - Porto a Valença do Minho - 129 km

Vista sobre o Porto a partir da Sé.

Destino: Santiago!

Passagem junto à igreja da Nossa Senhora do Carmo das Carmelitas.

Entrada da Maia junto à ponte do metro.

Ponte de D. Zameiro sobre o rio Ave.

Outra perspetiva da mesma ponte.

Igreja românica de S. Pedro de Rates.

Interior da igreja de S. Pedro de Rates

Chegada a Barcelos, com passagem sobre o rio Cávado.

Junto ao templo do Senhor do Bom Jesus durante as festividades locais.

Passagem sobre a linha do Minho.

Por vezes o caminho é mesmo duro.

Passagem pela ponte das Tábuas, um local idílico que convidava mesmo a banhos.

Alameda de plátanos na entrada de Ponte de Lima.

Rio Lima e a sua ponte medieval.

Passando a ponte sobre o rio Lima.

Single-track logo depois de abandonar a zona da capela do anjo da guarda.

Dupla travessia sobre o rio da Labruja.

Início da subida da serra a Labruja.

E sobe...

Cruz dos Franceses na Serra da Labruja.

A minha velhinha Trek de regresso a este local.

Continuação da subida. O piso está bem durinho.

Em cima da ponte medieval sobre o rio Coura.

Igreja de S. Bento da Porta aberta antes de uma descida fantástica.

Estatística do final do dia 1

Estatística do final do dia 1

Estatística do final do dia 1

Travessia da ponte internacional de Valença.

Frente à Catedral de Tui.

Pelas ruelas do "casco" velho de Tui.

Passando pelo túnel das Clarissas.

Junto à ponte romana sobre o rio Louro por onde passava a via romana XIX.

Ponte das Febres.

Ponte das febres noutra perspectiva.

Travessias arriscadas.

Este é o local onde se inicia o novo traçado alternativo à passagem pela zona industrial do Porriño (na localidade de Orbenlle, às coordenadas N 42º 06.132 W 008º 38.004, na subida virar no caminho à esquerda).

São bem visíveis os sinais de vandalismo no painel informativo. Varias setas amarelas foram apagadas e colocaram outras indicando de novo para a horrível zona industrial. Estes atos de vandalismo foram feito por aquele que fazem do caminho um negócio e que preferem sujeitar os peregrinos a esse calvário para não perder a fonte de rendimento que representam os peregrinos. Atitudes destas são de lamentar...

Aspeto do traçado alternativo. Todo este trilho é muito mais agradável, com travessias de pontes e rios e muita verdura.

Aspeto do traçado alternativo. Todo este trilho é muito mais agradável, com travessias de pontes e rios e muita verdura.

Passagem pelo velódromo municipal de Porriño.

Centro de Porriño depois de ter evitado o calvário da ZI.

Início da subida junto à Igreja de Mos.

Depois da longa subida, um local a assinalar o caminho.

Em Redondela, junto ao albergue local.

Travessia da serra de Sotoxuste, com vista para a ria de Vigo.

Passagem na ponte medieval de Pontesampaio.

Soy el duende del Camino.

Travessia do rio Ulló.

Pontevedra junto à Igreja da Virxen Peregrina.

Ponte do Burgo.

É obrigatório ir até Santiago.

Passagem junto à linha de alta velocidade local.

A beleza dos bosques galegos.

Chegada a Caldas de Reis.

Igreja de Caldas de Reis.

Estatística do final do dia 2

Estatística do final do dia 2

Estatística do final do dia 2

Igreja de Santa Mariña de Carracedo.

Boas viagens

Início do fantástico trilho da descida de Valgas - a melhor parte do caminho para BTT.

Chegada a Padrón.

Igreja de Padrón.

Dentro da igreja, encontramos o padrão de pedra que dá nome à localidade, onde a barca que transportava o corpo do apóstolo Santiago teria sido amarrada.

Deu para conhecer uma figura do caminho, que ainda não conhecia: o Pepe de Padrón.

O seu pequeno recanto frente à igreja de Padrón - O Don Pepe - é um verdadeiro templo do peregrino.

A simpatia e boa disposição deste senhor é fantástica e, para quem não conhece, vale a pena parar no Don Pepe e receber o abraço retemperador deste carismático senhor.

Uma parede toda coberta de vieiras, como as que são usadas pelos peregrinos.

Santiago de Compostela finalmente à vista.

Estatística do final do dia 3

Estatística do final do dia 3

Estatística do final do dia 3

Finalmente alcançamos o destino.

Catedral de Santiago.

Ficam aqui algumas fotos de mais uma peregrinação.

 

Boas pedaladas

daraopedal

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publicado às 14:45

A história de Santiago de Compostela em desenho animado

por daraopedal, em 16.09.13

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publicado às 00:08

Proposta alternativa ao poligono industril de O Porriño - Caminho Central Português

por daraopedal, em 06.09.13

 

Retirado de aqui: http://caminhocentralasantiago.blogspot.pt/p/blog-page.html

 

 

 

 

ORBENLLE – PORRIÑO | Novo Itenerário




ITINERÁRIO PARA PEREGRINOS ORBENLLE – PORRIÑO

PELO ENTORNO NATURAL DAS GÂNDARAS E RIO LOURO

 

1. APRESENTAÇÃO

SEMPRE NO CAMINHO
Os primeiros trabalhos de investigação e identificação do antigo Caminho Português a Santiago na Galiza, que realizamos durante os anos de 1992-93, não nos permitiram salvar o alterado itinerário entre Orbenlle e O Porriño; o traçado histórico (inegável) tinha sido ocupado pela maior Zona Industrial da Galiza e pela estrada N-550, não havendo na época qualquer infra-estrutura que nos ajudasse a salvar esta verdadeira “penitência”. O decorrer do tempo, e a construção de infra-estruturas como o trajecto junto ao rio Louro, veio agora possibilitar apresentarmos este novo itinerário que vem fazer justiça ao Caminho Português na sua primeira etapa na Galiza. Desde logo, em todos os nossos trabalhos temo-nos ajustado no possível aos itinerários históricos, porém: Que acontece quando “a história” é uma zona industrial, uma concentração parcelaria, uma auto-estrada o um pântano? O purismo histórico absoluto só pode ser reivindicado pelos que desconhecem em absoluto o território e nunca dobraram as costas no “trabalho de campo”, porém nós sempre tivemos muito claro, já desde do tempo de Valiña que cada época teve o seu Caminho, e no Séc. XXI os peregrinos têm direito, como os seus antepassados, a ter os seus sus próprios Caminhos de Peregrinação.
Apresentamos um itinerário humilde, profundamente galego, que percorre um espaço natural único incorporando, em alguns pontos, o antigo Camino Real entre Tui y Vigo. Não foi fácil, num espaço rodeado por naves industriais e infra-estruturas de todo o tipo (auto-estrada, via rápida, e linha de comboio...), porém quarenta por cento do mesmo percorre velhos caminhos de terra rodeados de uma natureza esplêndida e o traçado tem apenas uns quinhentos metros mais que o itinerário actual pelo Polígono Industrial de As Gándaras e estrada N-550. Colocamos neste trabalho (realizado de forma completamente altruísta por e para os caminhantes) esforço, paixão, alma e sentimento; agora já não nos pertence, é vosso, dos peregrinos.
Queremos agradecer expressamente a colaboração dos moradores e dos técnicos de Património e do Xacobeo da Xunta de Galicia, que apoiaram e compreenderam desde a primeira hora este projecto; a Luis Freixo por incorporar uma alternativa preparada exclusivamente para deficientes e, consequentemente, expressar a memória especial a quem desde a sua humilde atalaia de O Cebreiro, soube mostrar-nos o Caminho: para Elías Valiña; vai este trabalho em agradecimento a tudo o que nos ensinou e semeou para o futuro. Obrigado, Elías!
Nada mais, BOM CAMINHO A TODOS, Ultreia e Sus eia!
Coordenação: José Antonio de la Riera
Investigação, documentação e trabalho de campo: José Antonio de la Riera, Manuel Garrido e Luis Freixo.
Fotografias: Manuel G. Vicente
Todos os peregrinos e membros da AGACS.

 

2.  JUSTIFICAÇÃO HISTÓRICA

a. Considerações prévias ao itinerário: uma primeira, e necessária, aproximação histórica.

Vejamos, ainda que seja sucintamente, o que nos pode aportar uma aproximação a rede viária ao largo dos séculos em relação ao Vale de Louriña. Se temos claro que um condicionante determinante na plasmação da rede viária num território foram orografia e os cursos fluviais, o grande corredor em que se integra o vale de Louriña (a grande Depressão Meridiana, o eixo N/S Carballo-Tui), vem definir e clarificar o que foi o trecho, da rede viária, entre Redondela y Tui. O grande vale está circundado a Oeste e Este por montanhas rochosas de onde afluem riachos até ao curso central do rio Louro gerando, também, fenómenos geográficos únicos como as Gándaras de Budiño. Essa constante hidráulica produziu, ao longo dos séculos, contínuas variantes em caminhos e trilhos porém, à vez, a grande fossa da Depressão Meridiana permitiu sempre uma passagem livre pelo interior entre a Galiza do Norte e o Sul. Não queremos de forma alguma aqui entrar em análises pormenorizadas das vias romanas, só acrescentar brevemente que, a respeito a Via XIX do Itinerário de Antonino, parece absolutamente claro (Caamaño Gesto, X.M: “Las vías romanas como antecedente y soporte de los caminos de peregrinación de Portugal a Compostela”), no que respeita ao valle de Louriña, que o seu passo seria: Tui, Orbenlle, O Porriño, Mos, Saxamonde (Santiaguiño de Antas), Padrón-Quintela, Redondela. O miliário actual que permanece junto de rota em Saxamonde (caso único de permanência), o incompleto de Decenito em Quintela, mais o anepigráfico encontrado em Tui-Rebordans, vem confirmar o dito.
A respeito das vias medievais, o trabalho mais importante (o de Elisa Ferreira “Los Caminos Medievales de Galicia”, Boletín Auriense, Anexo 9, Ourense 1988) assinala a saída de Tui pela Corredoira para continuar pelas Gándaras de Budiño em paralelo ao rio Louro, informando que uma doação de 1331 já indicava que a rota era «usada de homes, et de carros, et de bois». Na sua margem esquerda, segundo a cartografia indicada pela própria Elisa Ferreira, desde Cerquido (e com um desvio a San Salvador de Budiño) continuaria até Atios, Cans e Porriño. Pela margem direita, e desde Ribadelouro, sairia outra via (que viria a coincidir com o traçado do posterior Caminho Real), até Vigo por San Xurxo de Mosende, Herbille, San Pedro de Cela, San Pedro de Zamanes Porto e Evade. E esta variante foi, certamente, a utilizada pelos delegados de Xelmírez que levavam as relíquias de São Frutuoso, São Silvestre, São Cucufate e Santa Susana (1102) depois de ocorrido o “Pío Latrocinio de Relíquias” em Braga, que passaram pelo desaparecido mosteiro de São Pedro de Cela em vez de faze-lo por Porriño e aí esperaram a chegada do pontífice. Fundamental também a passagem pela Ponte das Febres até Ribaledouro, célebre por ali ficar doente São Telmo, e não poder prosseguir a sua peregrinação a Santiago, talvez em 1245. A este respeito diz o historiador tudense Ávila y Lacueva (Hª Civil y Eclesiástica de la Ciudad de Tui y su Obispado, 1854): «[…]entonces y después iba por aquel paraje el Camino del Apóstol, aunque hoy ya no es vereda a causa de haberse poblado el Porriño, y hechose cerca de la Ciudad un puente mejor sobre el Louro que no obstante de tener muchos años mantiene el nombre de puente nuevo por ser nuevo en el sitio, pues antes no había allí ninguno. Y desde su construcción se mudó por aquí el motivado camino[…]».
Desde Porriño o caminho prosseguia por Amieiro Longo, Sanguiñeda, Castro, Mos, Rúa, Louredo, Os Valos (ponte sobre o Louro), Padrón, Custoria, Quintela e Redondela. Diversos foros e um documento do Coto de Cans reflectem a passagem por Las Gándaras. Carlos Nárdiz (“El Territorio y los Caminos en Galicia”) também o detalha assim, citando a própria Elisa Ferreira a importante encruzilhada que sempre foi Porriño em relação com a sua comunicação com a Granxa Donicons, possessão do mosteiro de Melón. Da continuidade do caminho medieval pelo vale do Louriña da boa ideia o citado documento de Coto de Cans (1292) em relação à passagem por Amiero Longo: «[...] e dessi por esse carril contra o logar hu mora pero fanon, e dessi como se deçe ao porto de Ameeyro Longo[...]»
Não é necessário repetir aqui ou inútil entrar numa identificação absoluta entre vias romanas e caminhos medievais num território, excepto na travessia de rios ou traçados muito pontuais (neste caso todo o trajecto entre Mos – Rúa dos Cabaleiros-, Saxamonde e Quintela-Padrón). Sobre os caminhos reais e a sua continuidade, tão importantes à posteriori na identificação dos caminhos actuais, sobeja, basta acrescentar a pequena contribuição da cartografia histórica até o século XIX:“Descripción del Reyno de Galicia” (Fernando Ojea, Amberes 1598), “Gallaecia Regnum” (1600),“Descriptio Galleciae et Asturiae in Hispania” (1606), “Gallicia” (1632), “Il Regno di Galicia”(Cantelli da Vignola, 1696). É fundamentalmente, quando a cartografia começa a basear-se em medições matemáticas e aplicando critérios de racionalidade, quando aparece Domingo Fontán e a sua “Carta Geométrica de Galicia” (1845), que certamente nos ajudará a desentranhar a nebulosa dos caminhos no vale de Louriña
Uma aproximação à literatura odepórica (ndt: relatos de peregrinos) proporciona-nos as primeiras pistas do que logo desenvolveremos: em quase todos os relatos, e por depois de uma descrição, quase sempre pormenorizada, da cidade de Tui, esmagadoramente vamos encontrar citações expressas à vila de Redondela. Porriño o é ignorado, o é citado anedoticamente como mero lugar de passagem. O mais explícito (na sua, verdadeiramente, calamitosa viagem), numa das primeiras descrições, é de Frei  Claude de Bronseval (“Peregrinatio Hispánica”, acabada em 1532): depois de chegar a Redondela para seguir até Portugal escreve: «Volvimos a partir siguiendo un sendero de montañas estériles y llegamos a la villa de Porriño, donde comimos. Luego la abandonamos. Por un gran valle, en medio de las montañas – algunas servían de pasto para el ganado, otras estaban cubiertas de piedra- atravesando un sendero bastante practicable llegamos a la ciudad de Tui». Um dos relatos de peregrinação mais pormenorizado (Giovanni Bauptista Confalonieri, 1594), limita-se a citar:«Porriño, villa pequeña, había feria». Nem os relatores da grande peregrinação do grande duque Cosme de Medicis, 1669,  (Filippo Corsini, Lorenzo Megalotti, Giovanni Battista Gornia, Filippo Marchetti o Ciuti) nos acrescentam grande coisa, limitando-se a indicar (Corsini) que o vale de Louriña está bem cuidado e cultivado e aponta o cruzar das pequenas aldeias «Purrigno y Mos». O viageiro A. Jouvin chega a Tui (desde Santiago) em 1664 (em 1672 foram publicados os oito tomos do seu livro de viagens) depois de indicar: «Después encontramos Redondela, pueblo a la entrada de una bahía y después Porriño y algunas aldeas y cortijos, que son granjas, en una campiña rasa cubierta de desiertos hasta Tui...». Nicola Albani, geralmente tão explícito, não contribuiu em demasia salvo na alusão (durante a sua primeira peregrinação de 1743, já em direcção a Lisboa desde Santiago) a um estranho hospital, “Lhuger”, que pode ser equiparado ao estabelecido noPorriño e onde diz ter sido mal tratado. Situa-o a cinco léguas de Redondela e sete de Tui. O conde Alexandre de Laborde (1806) sim, aporta-nos notícias de interesse no percurso entre Santiago, Vigo e Tui, no que respeita a algo que temos um especial interesse em salientar: o caminho real entre Vigo e Tui, indicando que este era «muy montañoso» podendo apenas ser transitado a pé ou a cavalo. Esta notícia de Laborde é do máximo interesse já que é das poucas que nos chegaram do Caminho Real entre Vigo e Tui, e de toda a importância para tudo o que vamos aqui definir.
Poucas, e muito parcas noticiais no que refere ao traçado nos relatos de viageiros e peregrinos. A rede hospitalária de O Porriño, magnificamente estudada por Antón Pombo dentro do trabalho para a empresa ICEACSA realizado por vários membros da AGACS - Asociación Galega de Amigos do Camiño de Santiago (ICEACSA, “Delimitación dos Camiños a Santiago dende Portugal”, 1995), ajuda-nos a centrar a importância exacta desta histórica encruzilhada de Caminhos. Nesse, sentido Pombo delimita, apesar da notável importância que sempre teve como encruzilhada viária, que o núcleo populacional não se desenvolve até ao séc. XVI, precisamente quando passa a ser jurisdição da Igreja de Tui e tem lugar o mercado semanal de que já nos dá conta Confalonieri. O seu primeiro hospital é documentado em 1569 (Ávila y Lacueva). Do seu funcionamento danos noticias, precisamente nesse ano, o testamento de Alonso Arias de Saavedra que nos dá uma ideia da humildade e precariedade dessa instituição, que foi muito afectada em 1665 após um ataque de tropas portuguesas. Em 1667, Xoán Alonso “Foxeomundo”, contribui com uma fundação para a manutenção do hospital. O mesmo sucede com sua esposa, Dominga Riba, que pela sai mandou construir a ermita de Nuestra Señora da Guía, hoje à beira da N-550. Estes dados a respeito da acolhida jacobeia ajudam-nos a desenhar e delimitar no tempo a realidade viária e jacobeia de Porriño justamente antes de, passado o séc. XVI (onde ainda subsistiam as velhas rotas medievais) surgiram os chamados Caminhos Reais.

b. O chamado Caminho Real por San Xurxo de Mosende: entre a lenda, hagiografia e a realidade do território.

No ano de 1547 o bispo de Tui, Bartolomé Molino, encarrega Juan de Guiñián, visitador geral do bispado, que acuda ao lugar de Mosende onde se estavam a produzir estranhos acontecimentos ao redor de um sepulcro, acontecimentos que falavam de milagres e peregrinações em torno do mesmo e que, em função das suas pesquisas, apresentara um informe urgente (Archivo catedral de Tui, cajón 32, num 18. F Curia A.H.D). O bispo e o seu visitador, estavam avisados já da presença de elementos protestantes nos caminhos e, por outra parte, Trento tinha deixado muito claro quais eram os extremos da ortodoxia. Assim que o bispo e, por seu meio, seu zeloso visitador queriam saber em primeira mão em que extremos se moviam os estranhos acontecimentos de Mosende. E nesse sentido, Guiñián interroga três testemunhas: Juan de Morelos, pároco de Mosende, Dominga Pérez e Pedro González, vizinhos da paróquia. A pesquisa dá um primeiro resultado unanime: ali estava enterrado um peregrino que voltava de Santiago para Portugal e que morreu naquele lugar: «Preguntado si sabe o oyo decir quyen fuese San Diego que dizen estar allí sepultado e donde hera natural y que oficio y trato tenía. Dice el dho testigo que el oyo decir como dho tiene a los dos viejos ancianos que benyendo un hombre en abito de peregrino y romero por la hestrada y camino rreal del Señor Santiago que en aquel tiempo hera por la misma heredad don esta el dho sepulcro especialmente benyendo por la villa de Bigo para la ciudad de Tuy, le diera la ora de la muerte y le hallaron muerto y que en unas alforjuelas que traya le abian allado un papel escrito que dezìa ami me llaman don Diego y soy Cristiano en donde me allaren muerto me hagan la sepultura y me entierren». As boas gentes de Mosende terminam a sua resposta ao visitador: «y ansì lo abian sepultado».
Nada mais se disse acerca do sucesso, nem muito menos quando sucedeu, ainda que se declare que o sepulcro é muito antigo, que já falavam dele os velhos, acrescentado Pedro González que o sepulcro tinha mais de quinhentos anos. Na investigação anota-se que os peregrinos e romeiros começaram a acudir ao lugar e a reverenciar “don Diego” uns trinta ou quarenta anos antes. Da investigação de Juan de Griñián se deduzem os últimos e mais sonhados milagres, dos que, ocorridos nos últimos anos, os entrevistados manifestaram ser testemunhos em primeira mão. O mais impactante sobreveio de Antonio Alonso, vizinho e dono do terreno onde estava o sepulcro: fazendo trabalhos agrícolas, e para ganhar espaço na sua propriedade, retira umas pedras que cobriam o sepulcro. As consequências são imediatas: perde a fala, caminha a quatro patas e nu, a pele enegrece e, para rematar, anda em solidão pelos montes «ouveando» (uivando) e bebendo compulsivamente dos regatos. Pode-se descrever melhor a licantropia?
Porém ai está nosso Diego, transformado já em “don Diego”. Os vizinhos e a família saem em busca do infeliz e um deles disse (Caxón 32 idem...): «¡ay antonio debías de andar regarabatando y quitado las piedras de la sepultura de san Diego guarda no aga en ti milagros promete de reformar y aderezar su sepultura». Encomendam o desventurado Alonso a Deus e a “don Diego”, e aos poucos este sarainteiramente. Temos já um “santo” milagreiro, e além disso, nada menos que curado de licantropias e recuperador de lobisomens. Assim que não só este Camino mostra já reconhecidos pontífices como o próprio São Telmo (a quem seus hagiógrafos atribuem a construção da ponte de A Ramallosa – vide, “Biografía Ascética de San Pedro González Telmo”, Basilio González, Tui 1995, p.22-) mas podemos acrescentar desavergonhadamente um verdadeiro druida curandeiro de um dos grandes males do mundo do celta: a licantropia. Não está, desde logo, nada mal para uma rota especialmente sagrada (o Caminho de Santiago) que sempre se moveu com mitos, e mito autêntico é, desde logo, o misterioso peregrino “Diego”.
David Pèrez Rego, no seu esclarecedor trabalho: “Sobre a capela de San Diego de Mosende” (um achado documental) ou de como don Diego de Mosende se converte em São Diego de Alcalá”, acrescenta dados inacessíveis para o óbvio, e claramente intencional, transformação de don Diego em “San Diego” e, aos poucos, a deriva, sem vergonha, a sua identificação com São Diego de Alcalá. E assim já em 13 de Novembro de 1740, dia de São Diego de Alcalà de Henares, se fazia solene celebração litúrgica, segundo consta na escritura de fundação da Cofradía de San Diego de Mosende. Diz Pérez Rego que, só passado um ano das pesquisas de Juan de Griñián, em 1588, San Diego é canonizado por Sixto V.  E anota Pèrez Rego (op.cit.pg 7): «Que mellor que utilizar os milagres e a sona do santo de Mosende para avivar e impulsar o culto dun santo español no xusto momento en que este è canonizado, nun momento, en que, polo demàis, a potenciación por medio dun pseudopoliteismo das figuras do santoral, tan próximas a religiosidade popular, tense por optima para pechar as portas as ideas protestantes que viñan do norte». Ainda, nada melhor que a assimilação de don Diego com o santo de Alcalá, ao fim ao cabo santo franciscano, caridade, esmola, e viajantecompulsivo flagrantes poderes taumatúrgicas. Se encerra assim o ciclo ao gosto de todos e assim, no primeiro domingo de Junho inúmeras pessoas continuam a ir à pequena capela de Mosende para venerar o santo peregrino.
Desta maneira já temos un santo peregrino, e um verdadeiro mito, situado sobre um “Camino Real” Porém... que Caminho Real era este? e, sobretudo: de que maneira contribui para o novo itinerário de peregrinos que estamos a tentar reconstruir? As perguntas não são, desde logo, triviais, mas as respostas não são muito menos. Ernesto Iglesias Almeida, o grande investigador tudense, anota que entre os caminhos que saiam de Tui para Redondela (“Caminos Portugueses a Santiago”, Asociación Amigos de los Pazos, Vigo 1992, p.p 19 e 20) o que saia da cidade tudense pelo arrabalde do Rollo, seguindo por A Senra, a Virxe do Camiño em Rebordans, Ponte das Febres, Santa Columba de Ribadelouro, Capela de San Diego (Mosende), Santiago de Pontellas e San Salvador de Torneiros. Aqui indica que, continuava para San Pedro de Cela (antigo mosteiro) e Santiago de Bembibre (idem) para entrar em Vigo o continuava, e desde esse ponto, desvia-se ao Porriño.
De nosso trabalho de campo (com estudo completo e detalhado do território e as pesquisas oraiscorrespondentes) se segue o seguinte traçado do citado Caminho Real que relacionamos sucintamente (ver apoio cartográfico): do calvário de Ribadelouro, e abandonando ali o itinerário actual de peregrinação que se dirige nesse ponto até a ponte de Orbenlle, segue-se ao lugar de Monte, já na paróquia porriñesa de Mosende, onde se destaca a chamada “cruz de O Monte”. Outra alternativa, que cremos mais plausível, seria o cruzamento da mencionada ponte de Orbenlle para continuar pela margem esquerdo do Louro e repassa-lo em A Ponte Baranco (o itinerário que identificaremos para peregrinos) para acompanha-lo logo até Monte. Desse lugar, e após percorrer uns seiscentos metros sobre a estrada PO-342, o Caminho Real continua por uma pista asfaltada até o barro de Madorras deixando atrás os chamados “cruceiros de O Folón”. Ali encontra-se situada a capela de San Diego, rodeada por um campo de feira, um bom lavadouro e nas proximidades Pazo de Falcato (séc. XVII) 
Poucos metros adiante, com a rota penetrando na paróquia, encontramos o antigo cruzeiro de A Ruela que saúda o viageiro desde o interior de uma propriedade contígua. Até ele chegava a processão com San Diego até que, segundo informam os vizinhos, foi  trasladado para esse lugar ao crescer o  tráfico depois de se asfaltar o caminho. O itinerário continua até a igreja paroquial de San Xurxo de Mosende para chegar a Centeans, já na paróquia de Santiago de Pontellas. Um parque infantil flanqueia o itinerário que vai introduzindo-se numa suave descida por Centeans.
Já na encruzilhada em que se assenta o soberbo cruzeiro de Centeans (onde se recebe o itinerário que vem da Ponte Baranco), a rota gira para o imediato e afamado campo de festas de San Campio, com a sua grande e peculiar “Cruceiro Esmoleiro” e a capela dedicada ao santo. Cercando o campo de festa, em cuja parte posterior se encontra a peculiar “Quinta do Adro” ou “Quinta da Inquisición” para, na ascensão, chegar até a igreja paroquial de Santiago de Pontellas. Do templo paroquial, e em direcção ao próximo barro de Abelenda, se deixam para trás os lugares de Outeiro e Pousadelas. É em Abelenda, onde se alcança a Capela de San Paio, o ponto onde o caminho continua em direcção a Vigo (San Pedro de Cela y Bembrive) enquanto um ramal segue até para Porriño seguindo a estrada que leva a San Salvador de Torneiros deixando atrás cruzeiros como o de Os Matos. Antes de entrar no Porriño seguindo a PO-331 observamos junto da rota outro cruzeiro, o de O Cristo do Celeiro. Todo este itinerário do denominado “Camino Real” discorre por estradas pavimentadas descrevendo um grande arco para alcançar Porriño, no pressuposto de que este era oobjectivo. Desde Orbenlle, tem mais os sete quilómetros do itinerário actual.
Bem, temos já identificado um “Caminho Real”, porém: É um Caminho Real Tui-Porriño? Rotundamente, não! E esse "não" não é apenas dedução extraída de um processo simples bom sensode cartografar e observar o louco zig-zag e diferença em relação a um itinerário alegadamente“directo” ao Porriño. Podemos garantir que todos os que desde um gabinete têm falado desse “Camino Real Porriñés”, nunca vieram ao itinerário, nem observaram as profundas transformações sofridas no território, e muito menos o percorreram com uma mochila de dez quilos as costas. O que existiu e continua a existir, mesmo completamente espezinhado por estradas de asfalto de todos os tipos e condições, é um Caminho Real a Vigo, que continuando o caminho medieval estudado por Elisa Ferreira (já citado aqui anteriormente) foi suplementado pelo traçado desse “Caminho Real” (com muitos pontos de coincidência, quando não com uma coincidência plena). Sim temos em conta as pesquisas do visitador de Tui, os inquiridos, moradores do lugar, falam que a passagem do santo peregrino, segundo diziam os mais velhos, tinha acontecido muito tempo antes com disse um eles (Pedro González) que tinha mais de quinhentos anos, transportando-nos ao séc. XI, a um pleno caminho medieval que precisamente, naquele tempo era a «hestrada y camino rreal del Señor Santiago» e deixando, também, muito claro «especialmente benyendo por la villa de Bigo para la ciudad de Tui». O documento deixa pois categoricamente diáfana a existência de um caminho medieval entre Tui e Vigo (Bembrive), que mais tarde foi caminho real (também entre Tui e Vigo).
Um dos máximos defensores deste Caminho Real (e que o indicou como um dos possíveis  itinerários jacobeos do Caminho Português Central, Tui-Porriño) Ernesto Iglesias Almeida, não tem mais remédio que admitir (Ernesto Iglesias Almeida, op.cit.,p.20) que «Desde este lugar (capilla de San Diego) seguía el camino por Santiago de Pontellas y llegando a San Salvador de Torneiros iban hacia Porriño o bien seguir hacia San Pedro de Cela, en donde existía un antiguo monasterio entrando en Vigo por la parroquia de Santiago de Bembrive donde también existía otro antiguo monasterio» (sic)
Porque se não estivesse claro, Pascual Madoz (“Hª de todos los pueblos de España, Censo, Padrón y datos de 1845”), ao estudar a paroquia de San Jorge de Mosende, afirma rotundamente: «Atraviesa esta parroquia  el antiguo camino de Tuy a Vigo», depois de indicar que «por el lado sur hay una ermita dedicada a San Diego”.  Já vimos também, quando citamos a literatura odepórica no que interessa a estes tramos, como o conde de Laborde (1804) que se dirige a Tui desde Vigo através de un caminho montanhoso. O enorme curva de desvio para alcançar Porriño, com quase sete quilómetros mais do que sobre o itinerário actual, vem a confirmar o que argumentamos: nunca foi um Caminho directo a Porriño, era-o a Vigo. E, certamente, pode ter sido utilizado em épocas de inundação em As Gándaras como rota de apoio ou “de inverno” porém nunca como rota principal.

c. Caminos históricos, territorio y peregrinación jacobea en el siglo XXI

Então, qual era o histórico Camino Tui-Porrino? A resposta para nós era evidente já na nossaprimeira identificação de 1992-1993 e segue sendo agora: o traçado histórico correspondia com o actualmente sinalizado no vale do Louriña seguindo a margem esquerdo do Louro. O que ocorre é que o dito traçado encontra-se sepultado pelo maior polígono industrial da Galiza, uma grande auto-estrada e a estrada N-550 que, por Atios, leva a rota até Porriño.
É a antiga rota medieval indicada por Elisa Ferreira que, desde O Cerquido, ia até Atios, Coto de Cans, a encruzilhada do Porriño e Amieiro Longo, ratificada também por Avila e Lacueva. É, precisamente em Atios e a beira do caminho de Tui, onde Xoán Alonso “Foxeomundo” fez construir as custas da sua devoção a ermita de Nossa Sra. da Guía, hoje em plena estrada N-550. O omnipresente Pascual Madoz também indica a sobrevivência deste caminho como rota principal Tui-Porriño, não sem assinalar que, a altura de Atios, o estado da rota era calamitoso e não podia deixar de ser considerado como “vereda” (o que torna extensível do resto do caminho de Mós). Mas éjá mais científico e aprovado no Mapa Geométrico de Galicia de Domingo Fontán (1845) que não deixa lugar para dúvidas, indicando a via directa que temos vindo a indicar para Tui e do referido Camino Real de Vigo com o seu correspondente "desvio" para Porriño.
Bom, com estas abordagens devemos retornar à introdução geral deste trabalho de recuperação. Edentro dela, as perguntas fundamentais: porquê e para quem são estas rotas recuperadas no séculoXXI? Tem existido ao longo dos séculos um único caminho de peregrinação ou, o que é o mesmo? A nível geral a rota do século XII, foi a mesma do séc. XVI, XIX? Não é verdade que cada época teve o seu “Camino”? Procuramos, também, a plena historicidade, sim, mas... O que acontece quando a “história” fica reduzida a uma zona industrial, um pântano, uma auto-estrada, uma concentração parcelária, ou a uma rede de comboio de alta velocidade? que Caminho, que itinerário podemos oferecer aos peregrinos do séc. XXI?
Certamente, e já desde os tempos de Elías Valiña, desde as associações jacobeas e mais concretamente desde a AGACS, na Galiza, directos colaboradores e sucessores do falecido pároco de O Cebreiro, têm sido muito claro: os caminhos actuais de peregrinação não são outra coisa que uma abstracção histórica sobre a realidade objectiva de um território o que nós levou a um conceito clarificador: os actuais itinerários de peregrinação não são outra coisa que um processo incontestável de sentido comum aplicado a um território concreto que foi levado a uma transição (ou a um compromisso) entre o ideal do mais purista a essa realidade objectiva que é o território. Todo ele deu um fruto: “o Caminho possível”. E esse “Caminho do possível”, essa transição entre a realidade do território, a história, os actuais ideais e as preferências dos peregrinos, foi o que nos levou a apresentar este novo itinerário.

3.     ITINERÁRIO

Numa descida desde Santa Columba de Ribadelouro e após cruzar a histórica ponte de Orbenlle, o Caminho Português segue uma moderada subida pela estrada que conduz até mesmo lugar de Orbenlle. É aqui onde tomamos um antigo caminho de terra que nos sai a esquerda da marcha, apenas superadas as primeiras casas, e esse é o ponto exacto onde o antigo itinerário da zona industrial e a nova proposta se separam.
Num suave descida, sobre o traçado do velho Caminho Real envolto por uma exuberante vegetação autóctone, alcança-se a Ponte Baranco (possivelmente do séc. XVIII) sobre o Louro, para superar logo a curta distancia um soberbo “passo de inverno” de mais de cem metros. A rota aproxima-se de um desvio directo ao Norte que leva a Gándaras e a passagem abaixo da instalação de alta tensão; o itinerário faz nesse ponto um leve desvio a oeste por um agradável caminho de terra, entre vinhedos ao princípio e arvoredo autóctone mais tarde, até alcançar uma estrada asfaltada. Daqui (à direita a pista acaba no pequeno lugar de Xe de Baixo) o traçado se introduz já na paróquia de San Xurxo de Mosende pelo bairro de Monte,
atravessando os lugares de Vides e Cruceiro para dirigir-se entre casas a outro magnífico “passo de inverno”, conhecido entre los locais como “passo de Botate”.
Por um bom caminho de terra, bordeado por vegetação da ribeira e pinheiros do país, o itinerário alcança a estrada asfaltada que se dirige a Centeáns e San Campio após superar o pequeno lugar de Quintela,  num traçado tranquilo directo ao Norte entre o sossego da paz rural, com apenas circulação
de veículos e algum tractor, entre latidos e uma exuberante vegetação autóctone. A estrada local que temos seguido alcança as primeiras casas de Centeáns (já na paroquia de Santiago de Pontellas), onde nos recebe uma venerável “cruz de mortos”, para dar de imediato lugar ao soberbo cruzeiro de Centeáns; situado numa encruzilhada que também acolhe a estrada que vem desde San Diego e San Xurxo de Mosende seguindo o antigo Caminho Real a Vigo, é sem dúvida um dos mais belos da comarca. O Caminho Real e o novo itinerário unem-se de novo para percorrer juntos até ao bonito conjunto que faz o grande Cruzeiro Esmoleiro de San Campio, junto com o bem cuidado campo da festa e a própria capela dedicada ao santo. Atrás do campo da festa encontra-se a histórica e inquietante Quinta do Adro ou Quinta da Inquisição.

É aqui onde o Caminho Real a Vigo e o itinerário de peregrinos se separam definitivamente, continuando este num grato entorno ambiental pela estrada local que une Centeáns com a rotunda de Torneiros. Desde ali, através de um oportuno passeio pedonal e para ciclistas criado pelo Concello de Porriño, se alcança a percurso de terra junto ao Louro. A vegetação da ribeira e o rio (perfeitamente saneado em todo o trajecto) voltam a acompanhar o traçado até à mesma porta do albergue de peregrinos de Porriño e la PO-331, já dentro do casco urbano, ponto final deste itinerário desde Orbenlle; a partir deste ponto a rota a Santiago continua pelo actual traçado do Caminho Português.
Todo o percurso é perfeitamente válido e comodamente transitável e seguro para a peregrinação a pé, a cavalo ou em bicicleta; paralelamente a este, indicamos também o itinerário para menos-validos y cadeira de rodas. Como se indica na introdução, o novo traçado é apenas quinhentos metros mais extenso que o actual pela Zona Industrial e N-550, incorporando quarenta por cento de caminhos de terra (perfeitamente transitáveis) assim como um esplêndido entorno rural e ambiental.

 4. PATRIMÓNIO

  a. Sobre o próprio Itinerário

 

  • “Passos de inverno” de Baranco e O Folón. O primeiro é realmente espectacular, com quase cem metros de longitude sobre o caminho. O segundo, também conhecido como “passos de Botate”, com muito boa obra de pedra. Ambos com passagem adequada para bicicletas. 
  •  Cruz de Mortos de Centeáns.- Situada na margem direita do caminho, guarda a entrada de Centeáns. Os moradores indicam a sua grande antiguidade. 
  • Cruceiro de Centeáns. Na encruzilhada do Caminho Real. É o mais belo e antigo de todo Concello. (ver reportagem fotográfica) 
  • Cruceiro Esmoleiro de San Campio.- De gigantescas proporções (mais de quatro metros) e com “peto” para as esmolas, preside o grande campo de festas. Na sua base reza a inscrição: «Por ofrenda de D. Manuel Roris, natural de Mosende 1897» 
  • Campo de Fiestas de San Campio.- Amplíssima esplanada ajardinada e esmeradamente cuidada onde se celebra o terceiro domingo de Julho as festas de San Campio, reunindo as gentes de toda a Galiza Sul. Nele se encuentra: 
    • A Capela de San Campio.- A pequena capela, construída em 1886, foi reformada e ampliada em 1917 com a contribuição dos filos da paroquia de Santiago de Pontellas emigrados no Brasil. Nela se encontra a imagem do santo; o dia da festa, uma curiosa tradição faz com que se recolha o suor da imagem com um pano para aplicar aos que mais padecem da coluna e reumático. 
    • A Quinta do Adro ou “Quinta da Inquisición”. Este misterioso edifício, situado atras da capela do santo, reúne todo tipo de lendas e rumores na comarca. Desde logo, o escudo inquisitorial colocado sobre o portões e impressiona a enorme cortina dianteira rematada em pináculos do paço. Foi levantada em 1479 e entre seus moradores figura Joseph Antonio de Santander, notário da Inquisição na comarca.

b. Na proximidade adjacente ao itinerário

  • ·         Capela de San Diego.-  Construída sobre o lugar em que caiu morto o misterioso peregrino “Diego”, mais tarde “san Diego”, no lugar de Falcato (paroquia de San Xurxo de Mosende). Trata-se de uma pequena edificação de carácter eminentemente popular e sem grande mérito artístico, sendo todo o edifício extremadamente simples, sem sacristia, já que só se celebra missa uma vez ao ano. No dintel da porta figura a seguinte inscrição: «ESTA OBRA SE REE-FICOSE A COSTA- LOS VECINOS I COFRADÍAS I DEVOTOS. ABAD D HI R EST AÑO-1756». Segundo David Pérez Rego (op.cit.) a capela foi com toda a certeza reconstruida sobre outra anterior edificada em época indeterminada (entre os anos 1587 e 1740) sobre o lugar donde foi o sepulcro de don Diego. Nas cercanias encontra-se “A Casa das Novenas”, hoje ocupada pela comissão de festas, e um bom lavadeiro público de pedra. Tanto na obra da capela como na da Casa das Novenas teve importância fundamental a “Cofradía de San Diego”, em cuja constituição (1740) se diz que a citada confraria se cria porque «muchos desean se aga Cofradía al Milagroso Sancto para la redificación y mayor desencia de su Hermita». No seu interior, além da imagem de san Diego, conserva um pitoresco e ingénuo Santiago Mata-Mouros. 
  •  Igreja Paroquial de San Xurxo de Mosende.- Esplendido exemplo do barroco, acabado em 1794. Destaca a Via Crucis que a rodeia, de catorze cruzes, donde sobressaí as “Alminhas” de Madorras.
  • Cruzeiros no Caminho Real. - Ao largo de toda a paróquia de San Xurxo pode-se observar distintos cruzeiros de clara raiz popular: Adro, Falcato, Barbeito, Ruela y Folón; o cruzeiro de Ruela, hoje numa propriedade particular, era o eixo sobre o qual girava a procissão de san Diego na sua festividade. 
  • Solar de Cadaval.- Localizado na freguesia de Santiago de Pontellas e fundado no séc. XIV por Vasco González de Cadaval, trata-se de um magnífico edifício que foi destruído por Pedro Álvarez de Soutomaior, Pedro Madruga. Dispunha de duas torres com um bom conjunta de almeias e abundantes troneiras, e foi reconstruido em 1842 conservando uma das suas torres. 
  • Igreja Paroquial de Santiago de Pontellas. - Templo de enorme simplicidade construído entre os anos 1774-1776 e, muito provavelmente, obra do mesmo arquitecto que elevou a igreja de Santa Baia em Atios, com o que guarda enorme semelhança. Com toda a segurança, trata-se de uma construção edificada sobre outra muito mais antiga.

 

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publicado às 12:09

Caminho de Santiago da Costa - 1ª etapa

por daraopedal, em 03.07.13

Há muito que ansiava regressar a Santiago, percorrendo para isso "outro" caminho de Santiago. Já tinha percorrido o Caminho Português Central (via S. Pedro de Rates e Ponte de Lima) e o Caminho Francês (desde França - S. Jean Pied-de_Port) e a escolha recaiu desta vez no Caminho Português da Costa. Pretendia seguir pela costa partindo do Porto em direção a Caminha, para atravessar em ferry o rio Minho, seguindo por La Guardia e Vigo até reencontrar o caminho central em Pontevedra. Lembro-me de não ter achado particular interesse ao caminho central, daí ter optado pelo caminho da Costa. Ao pesquisar nos círculos habituais, reparei que ainda era um percurso pouco divulgado já que a informação disponível era pouca. Decidi por isso deixar aqui algumas dicas e informações sobre este percurso, pois podem ser úteis a outros que queriam percorrer esta senda.

A data escolhida (e possível) recaiu no mês de abril devido à possibilidade de aproveitar a ponte de 25 de abril (ainda não nos tiraram esse feriado!). A partida oficial seria em Vila Nova de Gaia, junto à câmara municipal local, designada como ponto de encontro do meu amigo de várias aventuras betetistas, com o nome de guerra "Triciclo"!{#emotions_dlg.happy} Os planos para esta etapa eram de ir pelo menos até Viana do Castelo, para ficar no albergue local. Apesar de ter conseguido arranjar um track GPS válido, que me foi muito útil (já agora aproveito para agradecer o user Jol8485 do forumbtt que o disponibilizou) não sabia muito bem como era o terreno, pelo que não colocamos a fasquia demasiado alta.

Ponto de partida, junto à Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia.

Passagem pela Ponte D. Luís.

Deslocámo-nos até à Sé do Porto, com a esperança de poder carimbar a credencial com o 1º carimbo da jornada. Contudo, não tivemos essa sorte pois eram 8h e a Sé só abria às 9h. Acabamos por encontrar imensos betetistas que estavam a reagrupar-se no local, nomeadamente os Gaiabikers, e que tinham o mesmo destino que nós. Tinham à sua espera uma "delegação" para entregar-lhes as credenciais e abençoar a sua viagem com um momento de oração. Sabia das intenções deste grupo, mas eles iriam seguir pelo caminho central, enquanto nós iamos pela costa.

Ao pesquisar e pelas várias passagens por S. Pedro de Rates, sabia que havia uma variante designada "Caminho da Costa" que segue do Porto até S. Pedro de Rates. Do Porto até essa localidade, o caminho é comum e lá podemos optar por seguir o central ou virar para a Póvoa de Varzim para seguir o tal "Caminho da Costa". Porém a minha intenção era outra, já tinha seguido as marcações mais recentes que nos levam por Matosinhos e Leça da Palmeira até Vila do Conde e Póvoa de Varzim. Era esse o nosso trajeto.

Passagem pelo Castelo do Queijo, junto à zona da Foz no Porto.

A primeira seta amarela surgiu no Senhor do Padrão antes de chegar à confusa zona da lota de Matosinhos. Atravessámos a ponte móvel e seguimos pela ciclovia junto ao porto de Leixões. A partir do "calçadão" de Leça da Palmeira, as setas não deixavam dúvidas e se as houvesse, bastava seguir para norte.

Pouco depois de Angeiras, o percurso segue literalmente pela praia, sendo a progressão algo complicada devido ao peso da bicicleta com os alforges.

Passagem pela Reserva Ornitológica de Mindelo com os seus trilhos arenosos, mas perfeitamente cicláveis.

Chegada a Vila do Conde com o cartão de visita do Convento de Santa Clara. A partir daí seguimos o roteiro turístico junto às praias e pela ciclovia que liga até à Póvoa de Varzim.

Forte de S. João Batista em Vila do Conde.

A partir daí o percurso é muito simples pela ciclovia que liga à Póvoa de Varzim. O complicado foi mesmo fintar a enchente de pessoas na ciclovia. O dia convidava a passeio à beira mar e a experiência de alguns ciclistas deixava muito a desejar e por pouco não ia batendo contra uma miudita de 4 ou 5 anos. No fim da ciclovia, as dúvidas surgiram e optámos por seguir o track GPS por ruelas ...

... que nos levaram a A-ver-Mar.

Passagem nas igrejas da Aguçadoura. O local curioso já que a estrada passa pelo meio de duas igrejas: uma mais recente e outra parcialmente destruída já que apenas existe a antiga torre sineira e a frente da fachada.

Parece uma igreja... mas não é!

Um pouco à frente, surgiu a primeiro sinal evidente de que estávamos no trilho certo: as já conhecidas setas amarelas e a vieira. Essa zona alternava entre campos e estufas. Uma zona com grande produção agrícola.

Passando a zona de cultivo, seguiu-se uma zona florestal.

Chegámos então à Apúlia (Esposende) , onde encontrámos esta placa do caminho da costa.

A partir daí, as marcações da setas amarelas passaram a surgir frequentemente.

Chegada à zona de Fão, onde encontra esta torre de depósito de água. Lá de cima, a vista deve ser qualquer coisa...

Passámos então pela ponte sobre o rio Cávado.

E chegámos a Esposende, onde encontramos este monumento alusivo ao caminho, logo à entrada da cidade.

Carimbamos na capela da Misericórdia e aproveitamos para almoçar numa das esplanadas junto ao rio. Infelizmente perdemos imenso tempo porque o local estava concorrido no dia feriado e o serviço demorou imenso.

Depois de abandonar o centro da cidade, o caminho vai seguindo ao longo da EN 13, até chegarmos ao albergue de S. Miguel de Marinhas.

Encontrámos por lá vários peregrinos que faziam o caminho a pé já a descansar de mais uma etapa. De bicicleta, as etapas são mais longas, então seguimos caminho. Ainda perguntámos pelo carimbo, mas foi-nos dito que era mais abaixo, no edifício da cruz vermelha. Desistimos da ideia e continuámos. O caminho leva-nos por ruas com nomes como "Rua da estrada velha" ou "Estrada real" o que não deixa dúvidas sobre as origens históricas do trajeto.

Em Antas, o caminho passa por uma zona florestal onde se torna um verdadeiro single-track técnico e algo perigoso, em especial para quem vai com alforges.

Por ali corre o rio Neiva, com as suas belas águas.

Seguindo pelo single-track a descer.

Nas descidas, nada de arriscar. O melhor era mesmo desmontar e ir à mão.

Chegámos então a um local belíssimo: uma travessia do rio Neiva numa pequena ponte tosca, fazendo lembrar umas poldras.

A beleza do rio Neiva e das suas margens verdejantes.

A azenha junto ao início da ponte.

Do outro lado do rio encontramos este marco a assinalar o caminho em Castelo do Neiva.

Depois de passar o rio, segui-se uma subida algo penosa até chegarmos a uma localidade chamada Santiago, venerando o santo padroeiro, daí termos encontrado vários monumentos alusivos ao caminho, nomeadamente este marco de pedra...

... este nicho com uma estátua de Santiago.

O primeiro local onde encontrámos a disponibilidade do carimbo bem em destaque.

.

Igreja de S. Tiago (Castelo do Neiva)

O teto da igreja onde se destaca a figura de Santiago peregrino.

A vista para sul, a partir do adro da igreja, com a costa atlântica sempre presente.

Logo a seguir, o trilho leva-nos a rodear a igreja pelo monte, por um trilho bastante agradável e sombrio. Para nos levar até lá, mais um monumento alusivo ao caminho.

O trilho ainda estava um pouco enlameado e técnico, mas nada como ir com cuidado.

O piso não era nada fácil em alguns locais.

Posteriormente, acabaríamos por passar junto ao mosteiro de S. Romão do Neiva, com o mosteiro à direita ...

... e uma imponente escadaria do lado esquerdo.

A partir daí, os trilhos alternam entre pequenas localidades e passagens por entre montes e campos.

Chegarmos então ao alto da serra onde existe uma estranha capela em homenagem a alguém que ali foi assassinado.

A partir daí, descemos abruptamente a serra local até Viana do Castelo. A descida é por alcatrão e convém testar bem os travões.

Seguimos pela EN 13 até atingir o rio Lima.

Entrada na cidade de Viana do Castelo pela ponte Eiffel.

Depois de cruzarmos a ponte, bastou seguir a linha de comboio para encontrar o albergue de Peregrinos S. João da Cruz dos Caminhos, situado na Igreja do Carmo, sob a tutela dos padres carmelitas descalços.

Podem encontrar o site oficial aqui e a página de facebook neste link.

O albergue propriamente dito situa-se nas traseiras da igreja, na zona do seminário.

Aspeto das camaratas onde ficámos. Pensava encontrar muita gente neste albergue, visto que nos cruzámos com muita gente a fazer o caminho, mas, curiosamente, o albergue estava vazio e ficou por nossa conta.

O primeiro dia resumiu-se a cerca de 92 km percorridos, sem grandes dificuldades e por paisagens bem interessantes.

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Caminho de Santiago da Costa - 2ª etapa

por daraopedal, em 03.07.13

No dia seguinte, apesar de termos acordado cedo, acabámos por perder algum tempo com o pequeno almoço demorado, que acabaria por fazer falta para o resto da etapa. Partimos com o olhar posto no santuário de Santa Luzia. Depois de atravessarmos as confusas ruas da cidade cheias do reboliço da manhã, iniciámos a passagem por uma das zonas mais bonitas do percurso. Acabámos por seguir na vertente oeste da serra do alto de Santa Luzia, sempre com o mar à nossa esquerda. Esta zona carateriza-se por trilhos em calçada e passagem por propriedades antigas com muitos encantos.

Aspeto do trilho

Um curioso monumento e uma curiosa rotunda.

Muitos caminhos tinham este encanto.

Passando debaixo da ponte.

Passagem de um pequeno ribeiro que nasce no monte de Stª Luzia e corre em direção ao mar, por uma ponte do género de Poldras.

Um local encantador.

Passagem junto a este imponente portão de uma propriedade da zona.

O mar e o verde sempre presentes.

O percurso acaba por seguir o trajeto do comboio e por diversas vezes acabámos por cruzar a linha do alto Minho.

Igreja do Carreço. O caminho passa mesmo pelo seu adro.

Pouco depois regressámos aos trilhos florestais, saudados por esta alegre mensagem.

Vida de peregrino nem sempre é fácil. Nada de tentar a travessia em cima da bicicleta. Era água até meio da perna.

Chegamos a outro local do caminho espetacular: o convento de são João de Cabanas. Na descida até ao rio Afife e rodeados por muros, encontra-se uma imponente igreja em vias de ruína, com um imponente edifício rosa. Nas suas paredes, vários azulejos com poema de Pedro Homem de Mello

Vista sobre o conjunto dos edifícios e da ponte.

Um pouco a montante, existe uma carreira de moinhos, alguns reconvertidos em pequenas habitações.

Depois da descida, a subida, claro... Mas até nem custou muito porque o local é espetacular.

Depois de alcançarmos o topo do monte, iniciámos a descida para Vila Praia de Âncora, primeiro pelo meio da floresta, depois por entre caminhos e ruelas.

Passagem do rio âncora, numa ponte feita com pedras / poldras.

O caminho é mesmo pelo meio dos campos. As setas não enganam!

As ruas da vila encontravam-se enfeitadas com flores de papel, o que veio trazer um belo colorido à nossa passagem.

Depois de atravessarmos mais uma vez a linha de comboio (que atravessa a cidade mesmo pelo meio), apanhámos a ciclovia do Atlântico existente junto ao mar, que nos levou em segurança em direção ao monte de Stª Tecla que se vê no horizonte.

Abandonando a ciclovia, passamos pela capela de Stº Isidoro, mesmo junto ao mar.

O trilho continua para norte, seguindo a linha de comboio.

Chegada à foz do rio Minho, com destaque para o Monte de Stª Tecla (do lado espanhol) e o forte da Ínsua, na pequena ilha existente no meio da foz do rio.

Passagem por um túnel debaixo da linha de comboio.

Seguimos pela estrada, junto ao passeio que estava em obras para se tornar uma ciclovia partilhada.

De novo a atravessar a linha.

Até que chegámos ao centro de Caminha, uma localidade que ainda não conhecia e da qual gostei. A praça central está muito arranjada e o percurso passa pela torre medieval, seguindo por uma ruela muito típica até chegar à zona do rio Minho.

Alcançámos então o desejado ferry. Tinha consultado os horários e sabíamos que partiria às 12h. Chegámos em cima da hora e para tal foi preciso pedalar. Mas a desilusão estava para chegar: devido ao assoreamento do rio, só se consegue navegar na preia-mar, quando o nível da água está mais alto. Ora, quando chegámos o rio estava com a maré demasiado baixa para permitir a travessia. Que desilusão! O próximo barco seria às 14h. Teríamos de esperar duas horas.

Optámos por continuar a viagem até Vila Nova de Cerveira e aí atravessar na ponte internacional até Espanha, para finalmente regressar a La Guardia, do outro lado do Minho. Seguimos pela nacional 13, atravessando o rio Coura.

Aqui já não se "Caminha", pedala-se!

De Caminha a Vila Nova de Cerveira foram cerca de 12 km a mais para cada lado. Não custou muito, mas foram mais quilómetros acumulados que atrasaram o plano delineado.

À entrada de V.N. de Cerveira, junto à Pousada da Juventude, um painel assinalava o caminho de Santiago. A verdade é que até havia setas amarelas a guiar-nos, mas eram as de outra variante do caminho, que levavam até Valença do Minho, para seguir o caminho central.

Chegada ao centro histórico de V. N. de Cerveira, onde almoçámos. Até almocei demais! Comi tanto, que até tive problemas depois ao pedalar. Quem me manda ser guloso!

Logo à saída de Cerveira, passamos a Ponte da Amizade até ao território espanhol. Por fim, estávamos em Espanha!

Se costumam dizer que de Espanha, nem bons ventos, nem bons casamentos, a verdade é que os problemas surgiram aí. Na chegada a La Guardia, o "Triciclo" partiu um raio da bicicleta. Nada que fizesse muita falta, mas esperávamos que fosse apenas este. Depois, fomos enganados por umas marcações estranhas, que era umas setas amarelas, mas com uma linha azul. Pensamos tratar-se de alguma alteração do percurso e descuramos o trilho do GPS, que mandava por outra direção. Fizemos mal em não seguir o GPS, pois acabámos por fazer um desvio, que só não foi maior porque íamos subindo cada vez mais para a serra. Decidimos voltar a descer e seguir o trilho GPS.

Apanhamos então a estrada PO-552, que tem uma excelente ciclovia ao longo de praticamente todo o seu curso. Pudemos assim pedalar em segurança, seguindo a direção do caminho que, ora seguia pelo mesmo trilho que nós, ora passava paralelo à ciclovia, em caminhos de pé posto, onde só se passa realmente a pé.

Quando o terreno não permitia a ciclovia junto à estrada, esta afastava-se mais para o litoral e seguia por caminhos em terra, sempre com sinalização. Muito bom!

Aqui, o Caminho faz jus ao seu nome: era realmente o caminho da Costa, a da morte mais precisamente. Embora esta zona pertença à Rias Baixas (que inclui a ria de Vigo), pode considerar-se uma zona onde o mar é tão bravo como a zona situada mais a norte da Costa da Morte. Aqui, apesar do azul turquesa lindíssimo do mar, a costa está repleta de rochedos e baixios. Praticamente não existe praia e o vento (a conhecida nortada) é terrível! Foram 50 longos e penosos quilómetros a pedalar contra o vento. É uma das coisas que mais odeio: para além do desgaste extra, o som sibilante produzido pelo vento nos ouvidos é extremamente desagradável, até do ponto de vista psicológico.

Para aguentarmos a dureza do percurso, valeu a passagem por um local muito pitoresco: o Mosteiro de Stª Maria de Oia.

Construído praticamente em cima do mar, desafia a bravura do Atlântico e o ímpeto das suas ondas. Não deixa de ser engraçado passar pelo caminho/estrada abaixo do convento, pois arriscamo-nos a levar com uma onda em cima, a qualquer momento.

O cabo Silleiro desafiava-nos com os seus ventos, mas já conseguiamos observar o farol que servia de marco para o nosso caminho.

Sempre contra a nortada, alcançamo-lo com muito custo.

Pudemos também observar as baterias de canhões estrategicamente dissimuladas na encosta do cabo.

Dobrado o cabo Silleiro, descobrimos as Ilhas Cies.

Vista para a entrada da ria de Vigo.

Continuando pela ciclovia em direção a Baiona.

Vista da Fortaleza de Baiona.

Pedalando pela ponte medieval de Ramallosa (Sec. XIII).

O piso não era nada convidativo a pedalar.

Acabaríamos por ficar nesta localidade de A Ramallosa, pois já era tarde para continuar e a pedalada de 50 km contra o vento tinha sido penosa.

Uma etapa de quase 95 km, com 6h44 min de pedalada efetiva.

Ficamos albergados no Paço de Pias, uma antiga casa senhorial do Sec. XVII, que agora funciona como retiro espiritual sob a tutela de uma ordem religiosa.

Funciona também como albergue e as condições são ótimas.

Tem a particularidade de possuir o maior espigueiro (hórreo) de dois pisos da Galiza.

Por-do-sol sobre a baia de Baiona / A Ramallosa.

Amanhã seria outro dia, e o objetivo poderia ser chegar a Santiago.

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publicado às 14:31

Caminho de Santiago da Costa - 3ª etapa

por daraopedal, em 03.07.13

No terceiro dia desta aventura, não sabíamos muito bem até onde poderíamos ir. A ideia era pedalar o mais possível para nos aproximarmos ao máximo de Santiago de Compostela, para ter uma etapa muito pequena no dia seguinte. Mas tudo dependeria de como correria o dia.

Partirmos bem cedo de A Ramallosa, ainda o sol não tinha aparecido. A manhã estava bastante fria, aliás o dia teve condições meteorológicas um pouco adversas.

Mais uma perspetiva sobre as Ilhas Cies. Na foto é possível ver a ciclovia existente em grande parte da estrada PO-325.

Para vencer o frio, nada como pedalar (muito) para chegar rapidamente a Vigo.

Nessa cidade, não há um trajeto marcado com as setas. Não há ainda um caminho oficial (li há pouco tempo que estava em discussão a definição desse trajeto pela cidade). Assim, valeu o trilho GPS para nos guiar pela imensidão de prédios. Não gostei nada da cidade, ruas onde o sol não chegava para nos aquecer um pouco, falta de pontos de interesse cultural e/ou histórico. Espero que seja alterado para melhor.

Depois de abandonar a cidade de Vigo, seguimos pela nacional e passamos junto à imponente ponte de Rande sobre a ria de Vigo.

No meio da ria, as estruturas dos viveiros de marisco.

Outra perspetiva da ponte.

Alcançamos então o Caminho Central em Redondela, onde passamos junto ao albergue local.

Sinalética já familiar.

Magnífica paisagem sobre a ria de Vigo.

Chegada a Ponte Sampaio, com a ponte que dá o nome à localidade.

Placa alusiva a uma importante batalha que ali se realizou.

Mais um ponte (A Ponte Nova), desta vez de ferro, que substituiu a ponte do arco destruída pelas cheias, antes da complicação do dia.

O "Triciclo" partiu o suporte da sua bicicleta, fruto da trepidação e do esticador muito tenso. Isto é daqueles imprevistos que são suficientes para complicar muito uma viagem, mas com ele nada disso. Nem foi preciso sair do sítio (no meio do nada) para resolver.

Saca um esticador, demonta as pontas metálicas, enfia-as para segurar as partes partidas, usa o elásticos para manter tudo unido e coloca um pau no meio para dar a rigidez necessária. Meia hora perdida, mas um trabalho impecável! Parabéns amigo!

Passagem pelo albergue de Pontevedra para carimbar.

Igreja da Virgem peregrina

As marcas pelas ruas de Pontevedra.

Passagem pela antiga ponte do Burgo.

Uma dos vários cruzeiros que podemos ver ao longo do caminho.

Depois, encontramos uma zona de obras que parecem ser do alargamento da via férrea.

Outro cruzeiro, com uma estátua de São Tiago no próprio pilar.

"Já falta menos!"

O trajeto é comum com a Via Romana XIX.

A zona percorrida em seguida é particularmente bela e cheia de verdura.

Pequena ponte rudimentar sobre uma linha de água.

Sempre junto ao caminho de ferro.

50 km para Santiago.

Até pelo meio dos campos é Caminho...

Em Caldas de Reis, junto à fonte termal.

Ponte antiga junto à fonte termal.

Paisagem fantástica onde pedalar é um encanto.

Igreja de Santa Maria de Carracedo.

Passagem em Pontecesures.

Chegada a Padron.. Faltavam pouco mais de 25 km para Santiago e já contávamos com quase 100 km nesta etapa. O tempo estava a ameaçar mudar repentinamente, mas achámos que conseguiríamos esticar até ao final. Sentia-me bem fisicamente, tal como o triciclo, então lá fomos!

Logo adiante, começa a chover copiosamente e ainda por cima um furo lento na minha bicicleta. Seria um sinal para ficarmos por ali? Teimosamente, optámos por continuar, depois de tratar do furo.

O tempo melhorou, mas encontramos mais uma surpresa: um desvio ao caminho original devido a obras.

10 km para o fim?

Parecia que tínhamos caídos nas graças de S. Pedro, pois éramos recebidos com um belo arco-íris.

Finalmente as torres da Catedral de Santiago de Compostela à vista!

"Bike for ever" :)

Quase, quase a chegar à entrada da ciade, fomos recebidos com uma chuvada intensa acompanhada por granizo! Que raio de receção!

Finalmente a chegada ao término de mais uma aventura: é sempre uma enorme satisfação e um alívio chegar à praça do Obradoiro.

Foi uma etapa dura q.b. em que pedalamos quase 9h30 ao longo do dia.

125 km no total desta etapa, já não pedalava tanta há bastante tempo.

Procurámos um albergue para pernoitar, pois chegámos à cidade por volta das 20h. Ficamos num hostel / albergue chamado "The last stamp", com excelentes condições.

No dia seguinte, pudemos deixar as bicicletas em segurança e ir à Oficina do Peregrino buscar a Compostelana.

Apesar de ser já a 3ª peregrinação a Santiago, por um ou outro motivo, nunca tinha assistido à missa do peregrino.

Foi com grande satisfação que estive presente nesta cerimónia religiosa e pude assistir ao momento do "botafumeiro", em que vários homens balançam pela catedral fora um enorme encensório de prata.

Para regressar a Portugal, dirigimo-nos à estação de comboios local.

Apanhámos o comboio regional da Renfe até Vigo.

Aí, tivemos de esperar algumas horas para podermos apanhar a ligação existente ao fim do dia para Portugal. O contraste de um comboio para o outro é flagrante. Pelos últimos relatos nas redes sociais, essa viagem é agora praticamente impossível, devido às mudanças impostas pela CP na linha do Minho. É mais um recuo

Resumindo, foi uma aventura com cerca de 312 km, num caminho que me agradou mais do que o caminho central.

Veremos qual e quando será o próximo...

Nota: Podem encontrar os trilhos do percurso na conta Wikiloc daraopedal.

Boas pedaladas

daraopedal

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publicado às 14:30

Dia 00 - Caminho Francês de Santiago

por daraopedal, em 27.09.10

O Comboio era às 19h05, mas procurámos chegar uma hora antes para desmontar e embalar as bicicletas. Em pleno parque de estacionamento, debaixo de um sol intenso, foi um "ver-se-te-avias" para ter tudo pronto atempadamente.

Depois veio a subida e descida pela escadaria da passagem superior sobre a linha. Uffa, uffa!!

Mas lá embarcámos e instalámos as bicicletas aos nossos pés no apertado compartimento.

Para abrir as camas foi necessário mudar a sua disposição, colocando-as ao alto, junto à janela. A noite foi aos sabor dos solavancos do comboio e por isso mal dormida.

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publicado às 23:54

Dia 01 - Caminho Francês de Santiago

por daraopedal, em 27.09.10

Mal chegámos a Hendaye deparámos com um controlo policial policial à saída do comboio. O comboio de ligação que estava mesmo no cais ao lado partiu sem nós. Com o tempo perdido no controlo e na bilheteira, ficámos apeados. O próximo era só às 10h43. Toca a esperar... Lá fora caía aquela chuva "molha-tolos". Ainda deu para tomar o pequeno-almoço, montar as bicicletas e conhecer bem a estação.

Os comboios que apanhámos nas ligações era TER (Train Express Regional) e ambos permitiam o transporte de biciletas em locais devidamente assinalado com um autocolante bem grande colado no vidro. É bom ver as pessoas a utilizarem as bicicletas nos transportes ferroviários sem que lhes sejam colocados entraves como é norma muitas vezes na CP. Um reparo de um tandem topo-de-gama que viajou no comboio até Bayonne.

Durante a viagem passámos por St. Jean de Luz e Biarritz o que ainda permitiu ver o mar. Em Bayonne trocámos para outro TER Aquitaine que nos levou por entre vales e paisagens espectaculares do Pirinéus. A parte final do percurso foi sempre ao longo do rio Nive (se não me engano), uma autêntica auto-estrada com engarrafamentos de rafting, tal era o número de barcos.

Acabámos por chegar a St. Jean Pied-de-Port pouco antes das 13h. A pequena vila fortificada vivia um dia bastante movimentado visto que era o início das festividades anuais e as pessoas nas ruas eram mais que muitas.

Procurámos o local de recepção dos peregrinos, mas só abria às 13h30, por isso decidimos procurar onde almoçar. Voltámos então ao local de recepção do peregrinos onde fomos muito bem atendidos por um senhor, uma simpatia de pessoa, com quem ainda estive a conversar um pouco sobre o nosso caminho português.

Recebemos a credencial francesa e perguntámos se daria para atravessar os Pirinéus nesse mesmo dia. Eram 15h e a travessia demora (a pé) cerca de 6h30. Começámos a fazer contas e mesmo estando de bicicleta, a média não seria muito inferior, o que levaria a acabar demasiado tarde esse percurso. Ele aconselhou-nos a ficar no Refuge Auberge de Orisson (770 m), um albergue a meio da subida.

 
A subida foi bem dura e aí o caminho era sempre por estrada, mas acabámos por desmontar várias vezes tal era a inclinação e a duração das subidas.

Afinal também era uma boa desculpa para aproveitar para apreciar e fotografar as magníficas paisagens dos Pirinéus, com prados e bosques verdes por todo o lado, pintalgados aqui e ali por pontos brancos das ovelhas dos rebanhos. Chegámos a um local onde abandonámos a estrada para seguir um trilho na companhia de um rebanho que fugia sempre à nossa frente e não nos deixava passar. Os nossos pneus ficaram imediatamente cravados dos seus "restos".

O tempo estava de chuva (chovia quando chegámos a St. Jean Pied-de-Port) e ia ficando mais frio à medida que subíamos. Chegámos ao albergue, carimbámos as credenciais e fomos tomar banho. O jantar foi em duas grandes mesas comuns. Conversámos bastante e foi muito interessante. A dado momento tivemos de nos apresentar todos. Havia franceses, espanhóis, canadianos e quebequenses, alemães e até um sírio.

Ficámos ainda a conversar, mas por volta das 21h, o albergue tinha de fechar. Fomos todos dormir.

 

   

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Dia 02 - Caminho Francês de Santiago

por daraopedal, em 27.09.10

O despertar foi cedo (6h35), visto que o pequeno almoço era servido entre as 7h e as 7h30, mas isso permitiu-nos ver o nascer do sol sobre os Pirinéus.

 
 
 

Foi novamente servido em conjunto e fomo-nos despedindo do pessoal à medida que iam saindo. Depois, pelo caminho, íamos novamente passando por eles. As subidas eram agora mais suaves do que as do dia anterior, mas ainda assim exigentes.

Vimos paisagens espectaculares com enormes rebanhos pelas encostas. Parámos junto à estátua da Virgem de Biakorre para fotografias e para apreciar as vistas.

Pouco depois vimos uma carrinha com uma barraca montada de uma indivíduo que se tinha instalado no local para vender comida e bebidas aos peregrinos. Também tinha um carimbo próprio pelo que carimbámos a credencial.

Mais acima, perto do monte Urdanasburu (1233m) levantou um nevoeiro cerrado, depois de passar a placa de madeira que indicava "Roncevaux/Orreada" e uma cruz de pedra, o trilho abandonou o asfalto, para seguir por terra.

 
 

Passámos por um refúgio de montanha e seguimos junto a bosques fantásticos e com um ar místico devido ao nevoeiro. De vez em quando surgia um ou outro peregrino. Até passámos por um grupo que seguia a pé, em sentido contrário, com um pequeno burro a carregar as tralhas no seu dorso. Encontrámos uma placa que indicava Santiago a 765 km e a fonte de Rolando.

Por essa altura entrámos em Espanha (Navarra) e começou a chover.

No col de Lepoeder, havia duas alternativas ao caminho e seguimos pela da direita para o Col de Ibañeta que apesar de mais longa era aconselhada, em detrimento da outra, quando o tempo estava mau.

Chovia bastante e começámos a sentir muito frio por ser sempre a descer, o que tornou a descida longa e penosa. O capacete até já pingava. Passámos por um bosque denso até encontrar no cruzamento do alto de Ibañeta o vulto de uma igreja moderna.

Surgiu assim, do nada, no meio do nevoeiro e da EN. Uns sinais de trabalhos na via e umas fitas sinalizadoras deixaram-nos dúvidas sobre o caminho a seguir. Perguntámos a uma rapariga que estava parada numa carrinha e seguimos por lá até encontrarmos uma pequena retroescavadora que estava a fazer manutenção do caminho e amavelmente nos deixou passar.

Finalmente, depois de uma curva num estradão, avistámos as torres da colegiata de Roncesvalles.

Molhados e cheios de frio, entrámos por várias portas/arcadas, passando frente a uma igreja que integrava a colegiata e dirigimo-nos à zona reservada aos peregrinos. Acabámos por ficar no átrio de acesso e aproveitei para comer uma boa sandes. Quando voltámos a espreitar lá fora, o tempo tinha mudado radicalmente e o sol começava a espreitar. Seguimos caminho para a aldeia de Burguete e depois de passar um pequeno ribeiro, seguimos por campos e por trilhos no meio de bosques frondosos.

Numa zona mais adiante, depois de passar uns locais onde o caminho era com escadinhas, chegámos ao alto de Mezkivitz, onde uma placa pedia para rezar um "Salvé Rainha".

A partir daí apanhamos calçadas duras e escadinhas, começando a subir, sempre pelo trilho, até ao alto de Erro. O percurso aí é muito bonito, com muitas zonas de pinheiro manso.

Passámos por bastantes peregrinos. No alto de Erro, junto à estrada, estavam muitos parados, inclusivé duas motos preparadas para o Dakar. Depois foi sempre a descer, num piso algo técnico, até Zubiri, onde almoçámos no bar do pavilhão desportivo, a conselho da alberguista que nos carimbou a credencial.

A etapa de Zubiri adiante ficou marcada pela passagem na zona da fábrica de magnesitas, pela quantidade de portões que tivemos de abrir e fechar e por seguirmos sempre ao longo do rio, com pescadores aqui e ali.

Optámos por ficar antes de Pamplona, em Trinidad de Arre, no Convento de la Trinidad.

 

Um simpático velhote recebeu-nos numa gabinete com cheiro a antigo e a sagrado. Devia provavelmente ser um monge. Carimbámos e levou-nos à zona do albergue, que ficava na parte de trás, com entrada por uma porta antiga que dava para um pequeno jardim muito acolhedor.

Por lá estava um grupo de italianos, de alemães, espanhóis e um japonês. Comemos no bar do outro albergue (o municipal) uma refeição que nos deixou pouco satisfeitos e regressámos ao nosso abrigo dessa noite. O vento estava a levantar e parecia anunciar chuva.

 
   

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publicado às 23:51

Dia 03 - Caminho Francês de Santiago

por daraopedal, em 27.09.10

Por volta das 6h30, começaram a fazer barulho. Acho que o Japonês foi o 1º a levantar-se, pelo menos foi o 1º a partir. Pelas 7h15 (+/-) levantei-me e acomodei as tralhas todas nos alforges. Chegámos rapidamente a Pamplona, onde entrámos por uma porta enorme, na zona das muralhas.

Passámos pela catedral, em obras, e fomos ao albergue para carimbar as credenciais.

Era enorme e parecia ser bem interessante. Depois seguimos pela zona da Universidade de Navarra.

Aí começou a chover e lá tivemos de voltar aos impermeáveis. Logo à saída da cidade, vimos uma mulher com uma criança de 5/6 anos pela mão.

A mãe carregava uma mochila e ia chamando a miúda que não estava com grande vontade de caminhar. Fiquei a pensar nas razões que levam uma mãe a sujeitar uma miúda a tamanho esforço. Afinal, ela não chega a "viver" o caminho, nem entende o seu significado e provavelmente, passado pouco tempo, nem se lembrará do que viu e por onde passou. Também é certo que não sei se iam fazer o caminho na totalidade, mas ainda assim... Adiante vimos um homem de mochila às costas e com outro miúda pela mão. Seria o resto da família? Finalmente começámos a seguir em direcção à serra do Alto del Perdon.

Eram imensos os peregrinos que se viam no caminho subindo em direcção às eólicas. Pensei inicialmente que íamos mesmo até ao ponto mais alto, mas afinal não; o monumento ao peregrino está do lado direito de uma fileira de torres eólicas.

 

A ventania também era tal que mal chegámos ao alto tivemos de vestir os casacos. Tirámos as fotos da praxe. Iniciámos então a descida muito técnica e dura devido às pedras parecidas com seixos redondos e escorregadios.

O meu travão de trás começou a chiar bastante, mas foi travando. A dificuldade maior foi mesmo ultrapassar tanto peregrino a pé. Perdi a conta às vezes que disse "Perdon", "Gracias". Que falta me faz a minha pequena campainha! Rapidamente chegámos a Puente de la Reina. Parámos junto a uma estátua do peregrino e carimbámos no albergue logo ali ao lado.

Fomos então até ao centro, um pouco ao acaso porque perdemos sinal das marcas, mas como estávamos na calle Mayor, em direcção à ponte, devia ser mesmo por ali.

Tirámos as fotos da praxe na zona da ponte.

 

Voltámos para trás, para almoçar junto à praça. Logo a seguir a Puente de la Reina apanhámos uma forte subida, ainda por cima com bastante calor, no entanto o local era bem bonito, com uns pinheiros e encostas bem engraçados até chegar à autovia.

Na rede de separação, os peregrinos tinham colocado cruzes feitas de paus. Numa descida entre vinhedos, avistámos uma pequena aldeia chamada Cirauqui.

Fiquei encantado com a sua beleza pitoresca. Subimos a encosta até ao centro onde existe um arco num edifício pelo qual temos de atravessar. Na descida há uma calçada romana, bem desagradável para pedalar, mas interessante a descobrir. Tivemos de transpor uma ponte em ruínas e continuámos pela calçada romana. É difícil pedalar pela calçada porque as pedras estão lisas e escorregadias e os alforges andam sempre aos saltos. Passámos uma e outra vez debaixo da A12, numa jornada em que o vento acabou por ser o nosso (indesejado) companheiro, o que tornou o resto da etapa algo desagradável.

Assim, quando avistámos Estella, já só queríamos ficar por lá.

Optámos pelo albergue paroquial, situado num edifício recente (tipo apartamento). As bicicletas tiveram de ficar fora, amarradas na rua visto que não havia espaço dentro, o que me desagradou um pouco.

 

Estivemos também com um senhor chamado José António Garcia, que tem a particularidadee de ter feito perto de 97 000 km pelo mundo em peregrinação, como forma de agradecimento à virgem por ter sobrevivido a um naufrágio em mar alto na Noruega. Esse senhor era pescador e o seu barco naufragou, tendo sido o único sobrevivente. Esperou 9h entre cadáveres até ser resgatado, e esteve quase um ano em recuperação, mas desde aí percorreu muitos dos lugares considerados altares do mundo. Conheceu o Papa João Paulo II e o Daila Lama. Já esteve no Tibete, Índia, Nepal, Sibéria, África, Canada, China, Israel e Equador. Tinha também já passado por Portugal: no Porto tinham-lhe roubado a bicicleta, a mochila e o dinheiro e depois, chegado a Fátima e sem comer havia já dois dias, pediu esmola a um padre. Segundo nos disse, a resposta do padre foi que Jesus Cristo tinha andado 40 dias no deserto sem comer, portanto ainda podia aguentar mais 38. Até senti vergonha da imagem que ele levou do nosso país. Estava agora a regressar de Santiago de Compostela, indo para S. Sebastian, onde ia encontrar a sua família e conhecer netos que nunca tinha visto. Um feito, sem dúvida! O jantar foi em comum.

Conversámos com uma francesa que fazia o caminho aos poucos havia já uns anos, e uma espanhola que, como nós, andava a fazer o caminho de bicicleta e até com um português que chegou ao albergue depois de nós na companhia de um grupo de italianos. Havia polacos, ingleses, americanos, espanhóis, italianos, franceses e portugueses. Hoje fizemos 54.47 km em 5h11min a uma média de 10.93 km/h. Total 123 km. Ainda a procissão vai no adro...

   

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publicado às 23:49


O relato das minhas aventuras pelos Caminhos de Santiago

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